domingo, 18 de novembro de 2012

SF2 - 1ª rodada (continuação)

Raimundo Aldo x Leonardo Silveira

Continuando, vi rapidamente aqui ( tenho que procurar outros jogadores além de mim, Léo e Cohen, eu sei ) a partida entre dois paraenses na primeira rodada. Aldo x Léo.

Bom, podemos ver aqui o "modus operandi" do Léo de conseguir a iniciativa com as peças negras. Mesmo não adotando o setup típico da bogoíndia, Léo joga 5.Bb4, com a ideia inicial de lutar pelas casas centrais, em especial e4.

Continuando, não gostei do 9.Ce5? do Aldo, parece sem sentido e com a única ideia de evitar o lance liberador e5. Uma opção bem melhor seria 9.a3, perguntando para as negras se elas querem entregar o par de bispos.

Depois de 9. dxc4 das negras, 10. Cxd7? é um erro que deixa as negras claramente superiores. Com 10.cxd3!, segue-se um linha forçada, e depois de 12.e5!, 13.Txe5 exclama: a torre é inserida no ataque à ala do rei. A manobra que se segue com 14.Bf5 - 15.a5! e 16.Be6! deveria já estar na mente do Léo quando ele jogou 14.Bf5. Depois de Be6 as negras já estão em condições de montar um forte ataque na ala do rei.

Por fim, o erro decisivo das brancas foi  20.f4?? , entrando em uma complicação final na qual elas ficam com uma peça a menos.

Daí em diante, o jogo fica extremamente fácil para as negras.

Link da partida:

http://www.chessvideos.tv/chess-game-replayer.php?id=72347

terça-feira, 13 de novembro de 2012

SF 2 - 2011

Com mais de um ano de atraso, começo a postar alguma coisa sobre a SF2 realizada aqui em Belém, em 2011. Antes tarde do que nunca!

Sem mais enrolação, a ideia continua a mesma: postar algumas partidas dos jogadores paraenses no torneio. Atualmente eu tô sem o Rybka aqui no not, então as análises vão estar sem o embasamento de "silício", então, qualquer coisa postem se eu comentar alguma besteira:

1ªRodada


Rodrigo Chaves - Adriano Cunha

Nessa partida,  o reflexo de todo um ano ruim continuou se manisfestando: confusão mental na hora de calcular variantes decisivas. E isso ocorreu logo no início do jogo.

Jogamos uma abertura esquisita, que misturou um pouco de Pirc com abertura moderna (sua "prima"). Como estava animado - início de torneio - joguei a variante que provavelmente deve ser a objetivamente melhor: o ataque austríaco ( 4.f4 ). Meu adversário fez um plano diferente, e possivelmente equivocado, com 4.Bg4?       ( que em pouco tempo entrega o par de bispos) e c6-e6 -Cd7 - Dc7, com a ideia de rocar grande também.

 Bom, confesso que fiquei surpreso com o desenrolar das peças negras: é estranho ver um fianqueto em g7  em que o bispo acabou não indo pra lá, depois, uma formação porco-espinho, com e6?!, criando buracos em d6 e f6,tudo isso com a intenção de fugir do ataque a ala do rei que certamente viria. Eu acreditava que esse plano era falho e em alguma linha eu deveria ter uma boa vantagem, porém não consegui visualizar claramente a bendita variante...

A partir do lance 7.e6?! das negras eu percebi que a intenção delas era rocar grande. Elaborei uma ação rápida no centro com Bd2-e5- Ce4! que visava atacar os pontos débeis delas.

Mas o erro que realmente pode ser considerado grave das negras veio com 11.c5?. Sugiro ao leitor que tente analisar a posição após o lance 11.c5 das negras.

Aqui eu parei, tentei visualizar diversas linhas que começavam com 12.Cxd6 ( que é o correto) porém, não havia variantes forçadas e tampouco a posição resultante era "supervencedora" como eu já havia pré-julgado erroneamente. Os cálculos foram difíceis porque eu já julguei a posição erroneamente antes. Eu estava querendo ver um posição final esmagadora, o que, de fato, não acontece.

Outro erro foi ficar muito preocupado com coisas bobas, como o fato de vários lances não serem forçados, como depois de 12.Cxd6 - Bxd6 13.exd6 - Dxd6: Dama toma em d6 não é forçado. Se, por exemplo, as negras decidem não colocar a Dama na mesma coluna que a torre branca, elas podem não fazê-lo se quiserem. Porém, é um detalhe tão insignificante (o melhor para a negras nessa situação é tomar em d6 mesmo assim) que não deveria ter ocupado minha mente nem um minuto. 

A ramificação realmente importante que acontece nessas variantes começa com 14.c4!( eu vi esse lance, mas fiquei com medo de expor meu rei, que está na mesma coluna que a Dama negra, porém, esse medo não tem absolutamente nenhum fundamento, já que as negras estão subdesenvolvidas, sem condições de explorar alguma coisa, além do que, o bispo em f1 protege c4...

E agora, o cavalo em d5 têm várias casas em que pode se alojar: b4,b6,f6,e7 e c7. O fato é que eu também visualizei até aí, porém, como havia dito, tinha o preconceito de querer encontrar algum tema tático vencedor. A realidade é que se, por exemplo, as negras movem o cavalo para f6, por exemplo (bem melhor do que para b4), as brancas "apenas" têm uma vantagem posicional possivelmente decisiva - par de bispos em uma posição aberta - mas não o mate imediato ou o ganho de uma peça, essa avaliação posicional que eu não tive bloqueou meus cálculos, em um momento decisivo do jogo. As outros lances de cavalo seguem a mesma ideia, sendo que a combinação para por aí.

É muito texto... espero que alguém entenda isso... O fato é que durante o jogo, como eu não vi uma super vantagem com a variante que começa com 12.Cxd6, e fiquei receoso de expor o meu rei com c4, joguei o fraquíssimo 12.Bb5?, seguido do plano que eu havia pensado anteriormente: Cxd6 e c4, porém o bispo branco não estará mais em f1 defendendo c4! (eu vou trocar em d7) Realmente, é difícil de explicar certos jogos...

Depois disso, perdi a iniciativa, e entrei em um final inferior, joguei o fraco 31.g5, só para citar um erro e fui sendo derrotado. Uma derrota bem dolorida logo na primeira rodada da SF2 - 2011. Mas com algumas importantes lições aprendidas.


Link da partida: 

http://www.chessvideos.tv/chess-game-replayer.php?id=72172




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Regional Norte 2011 - 6ª rodada.


Encerrando aqui de maneira bem sucinta a série sobre o Regional Norte, temos a partida jogada na última rodada, na mesa 1 entre Andrey Neves de brancas e Paulo Cohen com as peças negras.

O jogo não foi dos mais emocionantes, principalmente na abertura, com a escolha de uma abertura bastante simétrica com duplos fianquetos de cada lado.

O jogo começou a ficar um pouco desequilibrado quando as negras escolheram o tanto passivo 8.d6 em vez dos mais jogados 8. Ca6 ou mesmo o natural 8. d5, que daria bom jogo a elas. As brancas, então, foram aos poucos ganhando espaço com lances como 9.d4 , 12. h4  13.d5! que, combinado com 14.Bh3! praticamente obrigou as negras a jogarem Bxf3 e a partir daí o jogo ficou um pouco mais interessante.

Andrey utilizou a maioria virtual de peões na ala do rei pra tentar alguma coisa por ali, por meio do avanço f4-f5, porém as negras tinham contra-jogo suficiente na ala da dama. Tudo isso aliado a fraqueza do peão de c4 e ao fato do bispo branco ser mau, dava ao jogo um equilíbrio dinâmico. A variante 22. ... Bxc3! 23. Dxc3 f5! 24. Bf1 Cf6 25. De3 Rf8! = ilustra bem a situação.

Mas Cohen jogou 22. Tb7 permitindo f5, o jogo ficou um pouco tenso, em que a pressão branca branca na ala do rei ficou um pouco mais ameaçadora, e o cavalo negro mal posicionado em g7. Na posição em que o empate foi acordado, as brancas ainda poderiam pressionar com 28 ou 29. g4, porém o empate já garantira o primeiro lugar ao jogador de Manaus.

Link da partida:

http://www.chessvideos.tv/chess-game-replayer.php?id=70860

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Regional Norte 2011: 5ª rodada

Rodrigo x Lucio

Nessa partida eu me senti como um rato caindo numa ratoeira!

Em uma subvariante do contra-ataque Marshall da Ruy Lopez, as negras jogaram 11.Cf6?! em vez do teórico, e mais preciso, (porém também muito mais conhecido!!!) : 11.c6. E assim entramos em uma linha que Frank Marshall jogou contra J.R. Capablanca em 1918! Diz a lenda que Marshall esperou 10 anos para utilizar essa novidade contra Capa, na esperança de que a surpresa do seu adversário pudesse levá-lo à derrota. Porém, genial como foi, Capablanca mesmo entrando numa variante preparada, conseguiu jogar melhor que seu adversário e ganhar a partida!

Eu sabia muito por alto desse jogo, e não entendia muito bem as ideias combinatórias envolvidas, aí então, quando as pretas jogaram 11.Cf6 eu pensei comigo mesmo "ferrou!" (numa linguagem mais educada  aos leitores :-)

Até que joguei bem no começo: 12.h3 Bd6 13.Te1 Cg4 é a melhor continuação.

 Linhas como: 12.d4 Bd6 13. Te1 Cg4 14.h3 Dh5! (ganha esse tempo em relação a variante anterior) e agora, 15.Be3 não é suficiente para dar um bom jogo as brancas devido a 15.Bh2+! 16. Rf1! ( e não 16.Rh1? que coloca o rei na perigosa diagonal branca e com muitos chances de ataque decisivo ou mate mesmo). ...16.Bf4! e as negras estão bem melhores!

Segui com 14.Df3! Dh4 , porém, confuso, pego de surpresa e não entendendo bem a posição, joguei o prematuro e perdedor 15.Te8?? com a ideia boba de Dxf7+.

Antes de continuar as análises. Segue a linha que eu devia ter jogado, porém, seria preciso ser praticamente um Capablanca para perceber tantos detalhes sutis nas variantes, aí vai uma delas:

15.d4! (agora sim, deveria ter jogado d4 sem medo) e se ... 15 Cxf2?!

16. Te3!!

(e não 16.Te2 como o próprio Capablanca jogou, erroneamente, contra Marshall em 1918! Nem tão pouco 16.Dxf2?? devido a surpreende refutação: ... 16 Bh2+!! intermediário extremamente sutil, que visa levar o rei branco para a coluna f, impedindo o lance tático que estava sendo ameaçado: Dxf7+ seguido de mate na última fileira, agora isso não é mais possível porque as negras tomariam a Dama com a torre em f7 com cheque! 17.Rf1 Bg3! e sem chance de ser jogado agora 18.Dxf7+, como havia dito).

Seguindo a linha de 16.Te3, uma possível continuação poderia ser: ... 16.Cd3 17. Bd2! com jogo melhor para as brancas!

Mas eu não joguei nada disso! Como disse, me precipitei e joguei logo 15.Te8?? que foi respondido com o excelente 15.Bb7!!

Depois disso, o jogo seguiu praticamente com lances forçados, e, depois de pouco tempo, eu abandonei. Interessante partida, tenho certeza que esse tipo de miniatura já deve ter pegado muita gente pelo mundo, e eu fui uma de suas vítimas nesse dia!

Abaixo segue os links das partidas:


Rodrigo x Lucio (Regional Norte 2011):

http://www.chessvideos.tv/chess-game-replayer.php?id=70620


Capablanca x Marshall (Manhattan, 1918)

http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1095025&kpage=2



Regional Norte 2011: 5ª rodada.

Cohen x Bergson

Uma agressiva e confusa siciliana Dragão apareceu no tabuleiro. Talvez, logo no começo, 9.a6 não tenha sido o melhor lance do mundo para as pretas, por ser muito lento. Alguns lances depois, as brancas retornaram o bispo de c4 para e2, ao invés de b3 como muitos poderiam opinar, com o argumento de que este bispo geralmente é trocado pelo cavalo quando chega em c4 mesmo, além do que o BR branco em b3 poderia ser motivo de ganho de tempo para um avanço de peões na ala-dama com b5-a5-a4.

As negras deixam ser jogado h5, sem nenhuma possibilidade clara de contrajogo, já estão bem piores. Porém, de alguma maneira milagrosa, a fuga do rei pelo meio do tabuleiro cheio de peças é bem sucedida e o preto consegue colocar seu rei em b8, igualando a partida! Na altura do lance 32 o Rybka (em uma análise extremamente rápida, sempre é bom lembrar isso) dá 0.00, ou seja, uma posição rigorosamente empatada. Mas não é preciso calcular nada para ver que a altura do lance 40, a posição está num equilíbrio muito grande.

O problema foi o lance 40.a5?? das negras que acabaram perdendo o dito peão, se elas simplesmente não tivessem feito nada, ou seja,algo como 40.Rf2, ameaçando o peão-f, e se 41.Tg8+ Ra7 42.Tff8 (única chance das brancas tentarem "enrolar" as negras nessa final) é simplesmente respondido com 42.Te6! liberando a casa b6 para o rei, e ensejando um contrajogo que garantiria o empate.

Bom, mas não foi isso que aconteceu, e o precipitado 40.a5?? foi punido com a perda de material e posteriormente do jogo por parte das pretas.

Cohen x Bergson

http://www.chessvideos.tv/chess-game-replayer.php?id=70618













sexta-feira, 29 de junho de 2012

The King Returns Home.




Ontem, 28 de junho de 2012, fez exatamente 20 anos que o Mago do Xadrez, Mikhail Tal se foi.

No site da chessbase há uma bonita homenagem a esse grande personagem que de certa forma mudou nossa compreensão do jogo. Vale muito a pena ler, tem também um vídeo narrando o episódio de um  Tal moribundo, que fugiu do hospital para jogar seu torneio favorito, o mundial de blitz. Entre os competidores, estava nada menos Garry Kasparov, então campeão do mundo, que vinha derrotando um adversário após o outro, até se deparar com Tal. O "bruxo" realizou um sacríficio de Dama incorreto, mas pleiteou tantos problemas a Kasparov, que ele não conseguiu resolver todos em 5 minutos e deixou sua seta cair! No vídeo, Kasparov relata esse episódio e arremata: " É incrível e uma grande virtude como alguém no final da vida ainda era capaz de fazer aquilo que o fez imortal."

Também mando a vocês um link do chessgames.com , da última partida em ritmo clássico jogada por Tal, contra o jovem GM Akopian, no torneio de Barcelona em 1992. A história por trás dessa partida é interessante.

Tal jogou esse torneio em uma cadeira de rodas  e estava oferecendo muitos empates e jogando sem sua habitual vivacidade... Korchnoi conta que na última rodada Akopian estava com ambições de ficar entre os primeiros, e, por isso um dia antes, chegou para Tal e lhe disse que precisaria ganhar, não haveria empates no dia seguinte. Aquilo mexeu com os brios do Mestre de Riga que jogou uma partida cheia de complicações que eram a sua marca registrada. Korchnoi diz que realmente era pra ser assim, que alguém lá em cima sabia que aquela seria sua última partida, e que não poderia terminar empatada. É emblémático o último lance do jogo (38. Re1). O rei branco, após uma série de provações, retorna à casa inicial - The King Returns Home.

Aí vai o link da reportagem do chessbase e do referido jogo no site do chessgames.com

http://www.chessbase.com/newsdetail.asp?newsid=8285 (em inglês).

http://www.chessbase.com/espanola/newsdetail2.asp?id=10899   (espanhol).

http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1141202  ( A última partida - The King Returns Home).


PS: "Por coincidência", pesquisando alguma foto da "última partida" achei  a crônica do MI Hélder Câmara sobre ela. Fica aí a dica para lerem a crônica ( que é infinitamente melhor que esse texto desse blogueiro enxadrístico amador) e até comprarem o livro do MI Câmara: Diagonais: Crônicas de Xadrez, um livro maravilhoso que eu perdi...

Crônica do MI Câmara:  http://www.fotolog.com.br/schach/

Até outro dia,

Rodrigo Chaves.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

4ª rodada.

Bruno Santiago x Aldo Tavares

Essa partida da quarta rodada tem uma história curiosa, e que não tem nada a ver com o jogo, ou quase...

Quando saiu o emparceiramento da quarta rodada, o nosso amigo Dr. Aldo, ficou um pouco ansioso, porque ia jogar com o Bruno, que geralmente conseguia enrolá-lo de brancas. Daí, ele veio me pedir umas dicas sobre uma abertura para tentar ganhar dele. Bom, eu pensei um pouco e achei que se o Aldo jogasse uma Holandesa, podia conseguir sair do meio-jogo e até ir para um final em boas condições, já que o Bruno sempre joga fianquetando o BR. Mostrei para ele algumas ideias da holandesa (a formação "muro de pedra" com e6-f5-d5 e c6; o BD preto se desenvolveria via d7-e8-h5,etc.). Pois bem, quando a partida começou vi que o Aldo tinha gostado das minhas dicas, porém tínhamos esquecido de combinar com o Bruno pra ele jogar também d4-Cf3-Cbd2 etc,etc...

A moral da história é que não adianta tentar jogar uma abertura de última hora pra tentar enrolar o adversário, a não ser que você esteja muito seguro dos imprevistos que pode acontecer. Por exemplo, na partida eu não imaginava que as brancas iriam jogar d3 e e4, as ideias no caso, teriam que ser todas adaptadas.

Um lance ruim do Aldo logo na abertura com certeza foi 9.Bd7?(melhor seria Cbd7, que impediria e4 com Cc5, embora o desenvolvimento do BD continuasse sendo um problemas para as negras) um lance meio que provocado pelo Da4 das brancas. Bd7 descoordena as peças negras, desprotege b7 e permite temas táticos relacionados à debilidade da diagonal a2-g8, o mate de philidor e o peão desprotegido de b7. A combinação começou então com 10.e4! abrindo o jogo e resultando em ganho de qualidade para as brancas.





Nota: Teve uma partida muito interessante na quarta rodada entre o Cohen (vulgo cotonete) e o enxadrista Janio Lopes, de Roraima, porém no site a anotação não tá correta. Se for possível alguém achar essa partida escrita direito, eu posto aqui.

Por essa rodada é só, compenso nas outras.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

3ª Rodada.

Andrey Neves x Rafael Félix

O embate entre o forte enxadrista manauara Andrey Neves e a revelação do xadrez paraense de 2011, Rafael Félix, foi mais uma demonstração da periculosidade de aberturas aparentemente inofensivas, mas que, nas mãos de pessoas que sabem explorar os pequenos detalhes, podem ser mortais. Foi jogado um ataque ninzowitsch, típico do jogador de Manaus. Um momento crítico da partida no lance 14. e4, em que as negras tiveram dentre os vários lances candidatos, as opções 14.dxe4 e 14. Te8. Rafael preferiu a segunda opção, que é boa, porém permite às brancas alguma iniciativa no centro-ala do rei.

Depois de e5 e f4 das brancas, as negras fizeram o péssimo 16.f5?? que é horrível estrategicamente, pois além de debilitar a estrutura de peões do roque, não pára o ataque branco e ainda torna possível enfraquecer d5, tudo isso sem nenhuma compensação e de uma só vez. Bem melhor seria se as negras tivessem jogado 16. Db7! tirando a dama da coluna-c e defendendo o peão de d5, com jogo quase igual.

Depois disso, Andrey fez vários lances bons, continuando o ataque com 19. g4! e arrematando a partida com 28.Dxg7+




Mikhail Iwanow x João Paulo Mendes

Esse duelo da 3ª rodada serve pra prestigiar os grandes capis e brothers Mikhail Iwanow de Manaus (nome de Gm desse mano) e João Paulo daqui de Belém, e aproveito pra falar alguma coisa sobre a índia do rei.

Foi jogado uma índia do rei, variante saemisch, depois de uma leve transposição por parte do JP ( 1.g6?! do JP poderia dar oportunidade do Mikhail jogar uma pirc se ele quisesse). 6. Bd3 das brancas já é um pouco impreciso, sendo o mais jogado 6.Be3. Aqui, as negras poderiam ter aproveitado esse pequeno vacilo branco e jogado algo como 6.c5! ou 6.Cfd7!(com intenção de jogar e5 ou c5 depois), aproveitando que o peão de d4 estava momentaneamente desprotegido. Bom, mas enfim, isso não aconteceu, nada muito grave e a partida prosseguiu para as linhas clássicas sa saemisch. Um momento muito importante da partida foi justamente o lance seguinte, JP deveria ter jogado 7.c6! em vez de 7.Cbd7. A ideia aqui é tornar o jogo mais dinâmico para as negras, atacando o centro e liberando a diagonal d8-a5. O ponto é que depois de cxd5 as brancas quase sempre retomam com o peão c, já que tomar com o peão-e ninguém faz devido a perda de muito espaço no centro com um posterior f5,ganhando e4, e e4, liberando o BR preto. Se as brancas retomam de cavalo (... cxd5 - Cxd5), o jogo negro fica mais livre - o BD pode ir à e6, pode-se jogar f5, etc; com muita luta pelo centro e perda da iniciativa das brancas. E, finalmente, se as brancas depois de c6 e cxd5 das negras, retomam com o peão-c, que é o mais jogado, as pretas jogam como na partida Kamsky-Kasparov, que tem umas ideias parecidas com a partida do JP e do Mikhail, porém sem ter ocorrido o fundamental c6, que daria mais jogo às peças negras.

Outro lance interessante da partida foi 14.b5!? das pretas, numa corajosa tentativa de ativar suas peças, mesmo as custas de mais um sacrifício de peão. O sacríficio de peão em f4 é muito bom e até o de b5, o seria, se as brancas tivessem rocado grande, porém um detalhe na coordenação das peças negras, ( falta de 7.c6) prendeu todo o jogo negro posterior.




Segue abaixo os links de três partidas muito instrutivas sobre como se jogar o ataque saemisch de negras.

Na primeira vemos o Kasparov realizando o lances como c6 e Cf4!(esse o JP achou), que sacrifica um peão para ativar o BR preto, em seguida o "The Boss" desenvolve um feroz ataque na ala da dama (nesse caso, Kamsky tinha rocado grande) e ganha o jogo no melhor estilo Kasparov.

No segundo link, mostro pra vocês a interessante partida Korchnoi-Stein, que o lance 14.b5!? do JP me lembrou, mas também nesse caso, o rei das brancas estava na ala da Dama... É interessante, quem quiser, pesquisar que existem outros meios de jogo (Ch5-f5,etc) além da partida modelo Kamsky-Kasparov.

E, no terceiro link, vai uma partida muito complexa e bela, jogada por nada menos que os gigantes Karpov e Kasparov. É bem verdade que ao que parece, Karpov caiu numa preparação teórica. Mas, esse jogo é excelente para quem quer aprender a ser um jogador dinâmico e de ataque.

1) Kamsky-Kasparov
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1066688

2) Korchnoi-Stein
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1081623

3) Karpov-Kasparov
http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1067319

link do artigo do Yasser Seraiwan, que explica as sutilezas dessa bela partida (vale à pena conferir!):
http://www.chesscafe.com/text/yaz26.pdf

2ª rodada.

Vou ter que comentar mais sucintamente aqui por que senão não completo todas as rodadas =)

Na segunda rodada tivemos um embate entre os enxadrista Bergson Fragoso do Maranhão e Liduino Furtado do Amapá, mas praticamente naturalizado um capi paraense :-)

Bem, a partida foi um gambito da dama pouco ortodoxo. As brancas basicamente se utilizaram da ideia geral do gambito da dama, que é deixar o peão de c4 como gambito para se utilizar do espaço no centro resultante disso para conseguir algum contra-jogo. Em contrapartida, as negras defendem seu peão recém tomado a todo o custo e montam uma forte avalanche de peões na ala da dama.

As brancas conseguiram alguma coisa nesse sentido, o cavalo em g3 ficou bem posicionado, mirando as debilidades de f6 e g7, quando fosse colocado em h5, e o cavalo de c3 poderia ir para f4 via e2, tentando ameaçar alguma coisa. Entretanto, faltava às brancas alguma coisa, o seu centro não estava assim tão superior e as negras poderiam se defender, porém com jogo complexo.

Quando as negras jogaram 18.Bxc3? o jogo passa a ser estrategicamente mais favorável as brancas já que as casas negras (pontos f6 e g7 antes comentados) ficaram muito expostos. O jogador do Maranhão manobrou bem, se utilizando dos cavalos - um em h5 e outro em f4, quando o peão de e6 ficou fraco, adquirindo vantagem decisiva. Vale ressaltar o bonito lance 31.e4! seguido de 32.d5! - e de novo temos o tema da debilidade das casas negras - tirando qualquer chance de contrajogo para as negras.




Bruno Santiago x Leonardo Eleutério

Outra partida interessante foi o encontro de dois caras que estão jogando muito bem aqui no Pará atualmente: Bruno Santiago de brancas, que depois de anos sem jogar, voltou e sempre se colocando bem nos torneios em que disputa (ficou em 2º lugar nesse Regional Norte) e o Leonardo Eleutério com as peças negras, também conhecido como Léo rsrs, e é o atual campeão paraense, sendo o jogador que mais conquistou títulos depois da "Era Bianor Dantas".

Mais do que analisar essa partida em si, é interessante falar sobre o fator psicológico e o tempo no xadrez. Aqui nessa partida eles foram primordiais. A abertuta foi descompromissada em seguir fielmente qualquer livro, tendo por intenção começar a "jogar xadrez mesmo" como diria o MI (ou GM já?) Diego Berardino, isso é bem típico do Léo, tirar o adversário dos livros para fazer ele pensar logo no começo. O Bruno, com certeza sabia que lances como 1.b6?! Ou até mesmo 5.Bb4?! ameaçando trocar o par de bispos, eram lances um tanto quanto duvidosos, só que deve ter perdido muito tempo pensando na melhor maneira de refutá-los quando na verdade, em posições assim o melhor seria apenas tentar jogar de maneira menos estereotipada, assim como as negras fizeram. Por exemplo, eu não jogaria o "normal" 7.Db3 e 8.d4, ao contrário, jogaria algo como 7.d3 ou 7.a3, e esperaria as negras demonstrarem a vantagem que seria jogar um meio jogo todo sem o par de bispos.

Do jeito que o jogo se desenvolveu, o ataque clássico "ataque Pillsburry"( a saber: cavalo em e5 apoiado pelos peões de d4 e f4) não vingou. As negras encontraram um lance muito bom, talvez o melhor da partida, se bem que era meio forçado hehe, 14.Te6, que permite um lance de defesa posterior ( 21.f6) que iguala a partida.

No final igualado, as brancas cometeram um erro psicológico decisivo. Apuradas no relógio, não quiseram jogar pra empatar e pretendiam forçar o jogo tentando passar o peão de d5. A manobra que iniciou com 42.Cg1 demorou muito e as negras maliciosamente preparam sua cartada final com 42.a4! esperando que no apuro de tempo, seu adversário se complicasse. Foi o que aconteceu. As brancas prosseguiram no plano errado Cf3-Ce5-Cf7+ - d5+ e permitiram as negras arrematarem o jogo com o golpe tático a3! seguido de c3-c2 promovendo.

Aqui vai o link da famosíssima partida que batizou o ataque Pillsbury:

http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1109079



Por hora, é só.

Abraço.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Regional Norte 2011.

Olá pessoal, depois de quase meio ano sem postar, estamos aí tentando recuperar o tempo perdido, e divulgando algumas partidas comentadas dos nossos atletas paraenses como entretenimento à todos os amantes do xadrez!

O segundo semestre de 2011 foi muito movimentado aqui no Pará! Tivemos além do Zonal Norte, a semifinal e final do campeonato paraense, o Regional Norte e, o mais importante de todos, a semifinal do campeonato brasileiro!

Na medida do possível vou escolhendo as partidas mais legais dos principais jogadores paraenses - na verdade vou tentar comentar um pouco a partida de todos - e quem sabe até dos atletas de fora!

Acho legal que apesar de ninguém postar aqui várias pessoas já me disseram que acham o blog legal =) Obrigado pessoal.

Então vamos lá.

Começando pelas partidas do Regional Norte, realizado no hotel Gold Mar, que contou com a presença de vários atletas de toda a região, notadamente vários bons jogadores de Manaus, de Tocantins, Roraima entre outros estados.

Eu era, teoricamente, o número 1 no ranking do torneio, e até que fiz uma boa partida contra meu amigo Genaro Amorim na 1ª rodada. Joguei 1.d4 porque era oque tinha preparado para o torneio, só que quando vi a resposta 1.e6 pensei:"hum, lá vem uma linha ultra-sólida do gambito da dama se eu jogar 2.c4!"

Então, abertura sólida por abertura sólida, preferi jogar uma francesa, que acabou sendo a variantes Burn (com dxe4). Acho uma linha um pouco arriscada para as negras, o GM russo Bareev é mestre nessa linha, mas acredito que na prática, um vacilo das negras permitem um ataque muito forte das brancas.

E foi justamente isso o que aconteceu nessa partida. Decidi montar um setup de roque grande e um ataque de baioneta com h4-g4-g5. Mas o que achei mais bacana dessa partida foi ter encontrado Df1! Vendo o sacríficio temporário de um peão pelo ganho de tempo no ataque com a manobra Dh3- Tdh1. Uma alternativa a 17.cxd4 seria 17.Bxe4, retirando o forte cavalo branco do centro. Mesmo assim, as brancas ainda manteriam uma certa vantagem, pelo ataque na coluna h que está próximo, mas as possibilidades de contra-jogo negro seriam muito maiores.

Bom, depois de 20.Bxf6, o jogo está ganho para as brancas com o computador mostrando mate em 6! Eu, capivara, não vi, e preferi então pressionar os pontos débeis g6 e e6. Depois de algumas complicações o jogo continuou ganho, até que terminou com 29.Cxe6.




Outra partida interessante da 1ª rodada foi Andrey Neves x Gleydison Santos:

Foi jogado uma abertura duplo fianqueto das brancas, bem ao estilo do forte jogador manaura. As negras criaram um esquema baseado em fianquetar o bispo de b7. Acredito que faltou em algum momento c5 por parte das pretas logo na abertura. Eu mesmo gosto do setup estilo porco-espinho contra o sistema colle ou algo parecido, como foi o caso da partida, mas faltou às negras jogarem d5 para igualar em resposta a c4 ( daí eu achar que 2.d6 não foi muito preciso) e, se as brancas não jogassem c4 e sim o esquema c3-e3-Bd3...(sistema colle), o sistema porco-espinho sem necessidade de d5 preto funcionaria perfeitamente.

As brancas encontraram um excelente recurso: d5! seguido de Cd4! Que cria debilidades muito fortes no campo negro, na prática, as negras podem até não estar tão ruins, mas é muito incômodo passar o jogo todo se defendendo... com dois peões dobrados na coluna d e com as peças brancas muito ativas, depois de Bxg7 o ponto branco ficou garantido.



Me lembrei de uma partida em que o mesmo recurso - sacrifício de peão em d5 - é usado, porém as negras mostram bem como se deve proceder:

http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1494011


A terceira partida que posso comentar foi Alvaro David x Patrick Albuquerque:

O Patrick jogou o sistema porco-espinho dele bem ao seu estilo, atrasando o desenvolvimento do cavalo de f6 ao máximo, preferindo primeiro desenvolver o BD, BR colocar um peão em d6 e só depois jogar Cf6, não tenho 100% de certeza mas acredito que é muita concessão no centro ofertada pelas negras logo no começo. É por isso que geralmente consigo boas posições de brancas contra ele.
Bom, mas as brancas nessa partida foram tímidas ou não souberam muito bem o que fazer. O cavalo em c2 desprotegido serviu de tema para uma ruptura negra com d5! E o plano a4-a5? foi precipitado também. Depois de 13.Cc2 eu particularmente prefiro o jogo negro, existem muito mais possibilidades pro bando negro (d5-b5 etc) do que para o branco. As brancas também deixaram passar um recurso - 32.b4! - que não salvaria a partida ( elas continuariam perdendo um peão, ou dois ) mas com certeza seria bem melhor do que o que foi jogado. Depois de 32.Dxf7?? o jogo ficou perdido.